Desconfiemos da simplificação da mídia. Sem dúvida, mas ela é com certeza muito útil para tornar claras certas coisas.
Os candidatos à presidência da República e para aos governos de estados da federação, falam sobre a educação brasileira com convicção e clareza, como do alto de suas cátedras, gesticulando as mãos em bom italiano. Sempre à cata de uma referência erudita ou de uma metáfora mais apropriada.
Os candidatos penetram no mundo das palavras como se entrasse num mosteiro com devoção, quase obsessivamente. É pouco dizer que eles são eruditos: são curiosos do tipo patológico, acrescido de um perfeccionismo obstinado. Esses homens e mulheres brilham no exemplo negativo do falar bonito. E o povo fica babando diante de tais promessas e ainda comentam: - “O ou candidato (a) é muito inteligente.”
Estou cada vez mais convencido da possibilidade de que tais candidatos não existem, de que eles nada mais são do que um produto de suas próprias linguagens.
Em vista de tantos idiotas que rodeiam, ia sentir-me culpado de tê-los imaginado. Prefiro acreditar que eles existam independentemente de minha responsabilidade pessoal.
A candidata do governo e seu projeto de governo, estão presos a ásperas condições sociais e seus sonhos e de pouca relação com a realidade da educação brasileira. O Brasil tem o terceiro pior índice de desigualdade no mundo e, apesar do aumento dos gastos sociais nos últimos dez anos apresentam uma baixa mobilidade social e qualidade educacional entre gerações. Os dados estão no primeiro relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) sobre América Latina e Caribe. Educação no Brasil é pior do que o de Paraguai, Equador e Bolívia. Enfim, a pior do mundo em todos os níveis e modalidades de ensino. Ao analisar o cumprimento das quatro principais metas estabelecidas pela Unesco, constata-se que o Brasil não tem um bom desempenho no que se refere à alfabetização, ao acesso ao ensino fundamental e à igualdade de gênero. Tem um baixo desempenho quando se analisa o percentual de alunos que conseguem passar do 5° ano do ensino fundamental, cujos objetivos são: ler, escrever e contar. O relatório aponta que o Brasil apresenta alta repetência e baixos índices de conclusão da educação básica. Na região da América Latina e Caribe, a taxa de repetência média para todas as séries do ensino fundamental é de 4,4%. Mas no Brasil, o índice é de 18, 7% - o maior de todos os países da região.
A candidata e os candidatos estam em boa companhia, com relação a esse equívoco, pois os demais planos de governo (pelo menos os conhecidos) também parecem feitos para um país que não é o nosso.
(*) é professor universitário, jornalista e escritor