A cobertura sobre a visita de Lula impressiona. A este pequeno país chegam todos os dias chefes de governo, ministros, as maiores personalidades. Com raras exceções recebem mais do que umas linhas ou passam despercebidos. A entrevista dele ao “Haaretz” saiu na primeira página nas edições em hebraico e inglês e no principal diário sobre economia e finanças. Sugiro não se arrisque a dar um passo como anônimo, pois não será possível. Lula é o que se chama de acontecimento mesmo antes de acontecer.
Oswaldo Aranha, político e diplomata brasileiro, foi quem, presidindo Assembléia Geral Especial das Nações Unidas em Nova York, em 1947, bateu o martelo na aprovação da partilha da Palestina em uma parte para um Estado judeu e outro árabe. Em 1948 nasceu Israel. O Estado Palestino árabe ainda não foi proclamado. O Brasil, dos primeiros países a reconhecer o Estado de Israel, manteve seu apoio à idéia de um Estado Palestino.
As relações entre Brasil e Israel podem ser qualificadas de muito boas. E Israel, graças à diplomacia brasileira, é o primeiro país a firmar acordo com o Mercosul. Lula será o primeiro presidente brasileiro a visitar Israel, o primeiro a discursar no Knesset, o parlamento israelense de 120 representantes, cujo presidente dirige as sessões com o martelo empregado por Aranha para presidir a reunião da partilha, coisa pouco sabida. Ele será o primeiro presidente brasileiro a visitar a Autoridade Palestina, esboço do que há muito se espera se transforme em governo do Estado Palestino independente com a qual também firmou acordo com o Mercosul. É visita de Estado, eminentemente política.
Previa-se, e informei, que Lula chegaria à região com israelenses e palestinos retomando suas negociações que incluirão o traçado da fronteira entre Israel e a região onde será proclamado o Estado Palestino. Mas, no que o parlamentar e general da reserva Mofaz qualificou de erro estratégico, e inúmeros diferentes pedidos de desculpas foram estendidos pelas mais altas autoridades israelenses ao vice-presidente Joe Biden, dos Estados Unidos, que visitava a região para dar sua contribuição à paz, um ato grosseiro de pequena autoridade, impensado ou não, mudou tudo. Anunciou construções de habitações israelenses em zona disputada de Jerusalém pelos palestinos. A suspensão de construções em territórios qualificados de ocupados é condição ‘sine qua non’ para se voltar a negociar. Optara-se pelo modo da proximidade, conversações indiretas. E como serão, espera-se. Choques entre forças de segurança israelense e combinação da esquerda israelense e palestinos já aconteceram. Podem acontecer outros. Paga-se caro por burradas políticas.
A secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, falou com Bibi Netanyahu, chefe do governo de Israel, e manifestou sua frustração. O ato israelense pôs em duvida a retomada de conversações. Em entrevista a CNN, Hillary qualificou a atitude de “um insulto aos Estados Unidos”. George Mitchel, o negociador americano, foi a Ramala, capital da Autoridade Palestina, para levar a Abu Mazen a garantia de que Israel suspenderá o programa. Abu Mazen não aceitou as desculpas do chefe de governo israelense por telefone. Quer escrito preto no branco. O quarteto Estados Unidos, Rússia, União Européia e Nações Unidas condenou Israel.
O ambiente aumentou as expectativas do que Lula terá a dizer no Parlamento. A entrevista concedida ao ‘Haaretz’ foi uma prévia. Não coincide com o pensamento israelense. Ele diz que a situação no Oriente Médio é cada dia mais difícil. Mas que sendo homem do diálogo “acredita que pelo diálogo podemos resolver todos os conflitos que parecem hoje de impossível solução”. Lula é citado como declarando que “novas ideias são necessárias para resolver as questões do Oriente Médio, inclusive a israelense-palestina”. E declaração dele de que “novos atores capazes de virem com novas ideias que tenham acesso a todos os níveis do conflito em Israel, Palestina, Irã, Síria, Jordânia, e muitos outros países associados ao conflito” são necessárias. “Os conflitos regionais não são bilaterais, e outros interesses precisam ser representados de forma a que se possa resolvê-los. O Irã é parte disso e alguém precisa falar com eles”, foram destaques.
Lula planejou a visita de forma a passar o mesmo tempo em Israel, Palestina e Jordânia: um dia e meio. Prevê-se que seu pronunciamento deixe implícito que ele considera que o Brasil, que tem excelentes relações com todos os atores dos conflitos da região, é o país que pode falar com todos. O personagem sem marcas e compromissos com o passado. O pacificador ideal. Aquele que falará com o Irã, que visitará em maio exatamente num momento em que os americanos se empenham em promover um programa de duras sanções para que desista de se transformar em potência nuclear. E aconselhando a que não se tente encostar o Irã na parede. Em Nova York, preveem que o Brasil votará contra as sanções ou se absterá no Conselho de Segurança, ao lado da Turquia e Líbano. Um texto da Agencia Reuters, de 11 de março, diz que isto pode até reduzir as chances do Brasil subir a membro permanente do Conselho de Segurança, ambição brasileira.
Hillary declarou à CNN que a resolução de sanções “deve ter dentes”. Até recentemente, os membros do Conselho concordavam, agora alguns dos permanentes e rotativos acreditam possam persuadir o Irã. Respeitamos o compromisso deles com diplomacia. Mas creio ter chegado a hora da comunidade internacional mostrar que a linha da diplomacia pode levar a uma corrida armamentista no Oriente Médio e a um conflito. “Não é um bom caminho”. A entrevista por coincidência foi logo depois da visita ao Brasil e ao erro israelense no caso de Jerusalém. E isto aumentou a curiosidade em torno de Lula que chegará domingo e hospeda-se no Hotel Rei Davi. Ele é acontecimento de interesse internacional.