iParaiba
28 de julho de 2014

Gil Campos

23/09/2011, às 08h04

Triste infância

O estudante David Mota Nogueira tinha apenas 10 anos. No início da tarde desta quarta-feira, dia 22, ele foi para a Escola Municipal Alcina Dantas Feijão, no bairro Mauá, em São Caetano do Sul, no ABC Paulista, onde cursava o 4º ano. Era calmo, circunspecto e sem nenhum histórico de violência. Até as 15h50 nada de anormal na sala de aula havia acontecido, até que David pediu à professora Rosileide Queiros de Oliveira, de 38 anos, para ir ao banheiro.

Momentos depois, para pânico dos 25 colegas que estavam assistindo aula, ele retornou segurando um revólver calibre 38. Sem nada dizer, atirou contra Rosileide, atingindo a professora no peito. Depois, se retirou da sala de aula e, na escada da escola, atirou contra a própria cabeça por duas vezes.



Os dois foram socorridos pela Polícia Militar, acionada pela direção da escola. O aluno, atendido no Hospital de Emergência Albert Sabin, em São Caetano, teve duas paradas cardíacas e morreu às 16h50. A professora foi socorrida pelo helicóptero Águia (foto – crédito de Adriano Lima) e seu quadro de saúde é considerado estável. A arma, usada pela criança, pertenceria ao seu pai, um guarda civil municipal.

O fato chocou a todos – os colegas de David, a direção e professores da escola, os policiais que atenderam a ocorrência, os jornalistas que cobriram o fato e, enfim, o País. Sai arrasado da escola, onde fui colher as primeiras informações para escrever minha reportagem, com um nó na garganta, vontade de chorar. Sentimento que tomou conta de outros colegas, todos estarrecidos com o que viram e ouviram na porta daquela escola no ABC Paulista.

O que leva uma criança, aparentemente calma, a tentar matar outra pessoa e, logo em seguida, cometer suicídio? Na mochila da escola era para ter balas, mas não de chumbo. Era para David portar um brinquedo, não uma arma de fogo.

Não dá para imaginar, neste momento, o que está acontecendo com as nossas crianças. Sabemos que, hoje, elas estão amadurecendo mais rápido e que, a cada dia, se envolvem mais com o mundo globalizado, com muito mais sexo e drogas, e menos rock’n roll. Recebem, no dia-a-dia, uma grande carga de informações e violência, e muitas delas não perdem os programas policiais, sensacionalistas, que invadem a TV aberta. Triste infância.

Que saudade da minha infância no Alto Branco, em Campina Grande. Éramos uma “renca” de meninos, todos de pé-no-chão, correndo pelas ruas de terra do Buraco da Jia, hoje Rosa Mística, e jogando bola nas ruas de calçamento do bairro; não raro, voltávamos para casa com a cabeça do dedão em carne viva.
Saudade da bola-de-gude, do pião, de “soltar coruja” (hoje, empinar pipas), de brincar de “toca” (pega-pega), da brincadeira do “cuscuz”, de simular farol de moto usando uma lata de leite com um pedaço de pau atravessando-a e um toco de vela, e saindo à noite iluminando as ruas escuras do bairro.

Saudade do carrinho de rolimã, do joguinho de prego (onde utilizávamos um botão ou uma pequena moeda como “bola”), do bolo-borrachinha e do cocorote de “seo” Josué. Das brincadeiras juninas, dos forrós dos Três do Nordeste, do “din-din” (picolé no saquinho) de coco, dos ovinhos coloridos e recheados com um amendoim, cada um, vendidos na barraca de “seo” Antonio e dona Inês. Saudade do banho de chuva no meio da rua, da brincadeira carnavalesca de jogar pó na cara dos colegas (gastávamos caixas e caixas de Maizena ou Arrozina). Saudade de me perfumar com a flagrância Encontro, da Avon, e ir namorar de longe a bela, apaixonante e inesquecível Sandra Maria na varanda de sua casa. Saudade do sorriso, do olhar, dos cabelos cacheados e longos. Saudade de uma infância sadia, inocente, inesquecível. Viva e pulsante. Feliz infância.




Arquivo

09/05/2011

De Biliu a Chico César

17/10/2010

Uma campanha política que nos envergonha

22/03/2010

Álvaro, nossa verdadeira cultura

26/02/2010

O sacramento do Daime

05/02/2010

Vital, o homem de preto

13/01/2009

Quanto custa um jornalista?

09/05/2008

Daime e o Céu de Campina

07/04/2008

A magia do picadeiro

23/02/2008

Lugar de policial bandido é na cadeia

22/01/2008

O último dos malditos

17/11/2007

22 anos de jornalismo de verdade

01/11/2007

Do Gulliver ao ''escárnio''

08/10/2007

O Bope de todos os governos

04/10/2007

Barbon e o dono do milharal

22/09/2007

Reencontro com Tan